
A história de Mazagão Velho, distrito do município de Mazagão, no Amapá, voltou a despertar interesse acadêmico por suas conexões com o continente africano. O professor e pesquisador Mahfouz Ag Adnane, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), desenvolve um estudo sobre a identidade da comunidade e sua relação histórica com o Marrocos.
Natural de uma comunidade tuaregue localizada em território do Mali e hoje naturalizado brasileiro, Adnane integra o Departamento de História da Arte da Unifesp. Inicialmente, sua pesquisa tinha como objetivo compreender a identidade marroquina presente em Mazagão Velho, mas a visita ao distrito revelou elementos históricos, religiosos e culturais que ampliaram o alcance da investigação.
Em julho de 2026, o pesquisador esteve no Amapá acompanhado de outros estudiosos e participou da tradicional Festa de São Tiago, manifestação cultural e religiosa realizada anualmente em Mazagão Velho e que recria simbolicamente batalhas entre mouros e cristãos.
Segundo Adnane, a relação dos moradores com essa ancestralidade chamou sua atenção.
“As pessoas são muito orgulhosas de terem origem marroquina, africana, a população quer realmente afirmar essa identidade”, relatou o pesquisador.
A partir dessa experiência de campo, ele pretende compreender e registrar a identidade mazaganense a partir da própria perspectiva dos moradores.
“Eles reivindicam uma ancestralidade marroquina, então, é isso que me interessa”, afirmou.
O professor deve retornar ao Amapá em novembro para dar continuidade à pesquisa.
A origem de Mazagão Velho está diretamente relacionada à presença portuguesa no norte da África.
Durante aproximadamente dois séculos, Portugal manteve uma fortaleza em Mazagão, no Marrocos, cidade atualmente chamada de El Jadida. Ao longo desse período, gerações de portugueses nasceram e viveram no território africano.
Para Adnane, essa longa permanência criou uma identidade que ultrapassa a simples origem portuguesa.
“Os portugueses que nasceram e cresceram ali não conheciam nem Portugal. Do meu ponto de vista, essas pessoas, claro, têm origem portuguesa, mas são marroquinas”, explicou.
Após conflitos entre Portugal e o Marrocos, a comunidade que vivia na região foi retirada do território africano por determinação da Coroa portuguesa, no século XVIII.
Os moradores foram levados inicialmente para Lisboa, depois para Belém, no Pará, e posteriormente para a região onde seria criada a atual Mazagão Velho, em 1770.
Ao longo dos anos, parte da população deixou o distrito em direção à sede de Mazagão e outras localidades, mas a comunidade preservou memórias, tradições e referências relacionadas a essa trajetória histórica.
Um dos principais símbolos dessa herança é a Festa de São Tiago, realizada todos os anos em julho.
Durante a celebração, moradores encenam uma batalha entre mouros e cristãos, tendo como personagem central São Tiago.
Na representação, os cristãos vencem os mouros, denominação historicamente utilizada para povos muçulmanos que ocuparam partes da Península Ibérica durante vários séculos.
Para o pesquisador, porém, a tradição reúne diferentes referências históricas e religiosas e não pode ser analisada apenas a partir da transferência da população marroquina para o Amapá.
Durante o trabalho de campo, Adnane encontrou elementos que provocaram novas reflexões sobre a formação da identidade local, como a forte presença da religiosidade cristã, pesquisas envolvendo ancestralidade africana, a migração histórica de moradores e as referências às Cruzadas e aos conflitos entre cristãos e muçulmanos.
A visita a Mazagão Velho também contou com a participação de pesquisadores de outras instituições.
Entre eles estavam John Fletcher, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), e Denise Dias Barros, docente da Universidade de São Paulo (USP).
Denise coordena o projeto Link’Art Áfricas, iniciativa financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e que reúne pesquisadores interessados na produção artística em diferentes contextos africanos desde a década de 1980.
Mazagão Velho integra os estudos desenvolvidos pelo projeto.
Os pesquisadores também participam da construção de uma rede de estudos que aproxima temas relacionados a desertos e florestas, conectando diferentes territórios e experiências culturais.
Mahfouz Ag Adnane pertence ao povo norte-africano Amazigh e iniciou sua formação acadêmica ainda jovem.
Alfabetizado em árabe em sua comunidade, recebeu bolsa para estudar no Egito, onde viveu durante dez anos.
Graduou-se em História e Civilização pela Universidade de Al-Azhar e cursou mestrado em História da África Contemporânea na Universidade do Cairo.
Em 2012, mudou-se para o Brasil e passou a aprofundar sua formação acadêmica no país.
Concluiu mestrado e doutorado em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Sua relação acadêmica e cultural com o Marrocos envolve estudos sobre música, artes visuais, cultura Amazigh e acompanhamento de artistas marroquinos em atividades realizadas no Brasil.
A previsão é que os resultados da pesquisa sobre Mazagão Velho sejam apresentados em forma de artigos acadêmicos ou livro até março de 2027.
O trabalho deverá contribuir para ampliar a compreensão sobre uma das histórias mais singulares do Amapá: a de uma comunidade amazônica cuja trajetória atravessa África, Europa e América do Sul, mantendo até hoje referências culturais de uma história iniciada do outro lado do Atlântico.